out 272020
 

Reflexões sobre religião, política, bolsonarismo. E música.
Mauro Borba entrevista o jornalista Ricardo Alexandre.

“Aqui é um país que as pessoas não leem, nunca leram, mas agora elas se acham muito espertas por não ler. Elas acham que estão numa super vantagem competitiva porque agora elas não são mais ‘manipuladas pela folha’. Agora elas estão manipuladas pelo Facebook.”

Conversei com o jornalista Ricardo Alexandre para o meu podcast, The Borba Cast e a gravação ficou com um problema técnico. Um eco que surgiu na gravação e que impossibilitou a edição. Mas o papo foi tão legal que pensei em um jeito de não perder o conteúdo. Assim resolvi publicar em forma de texto. Ricardo é jornalista, crítico musical, locutor e músico. Assim ele é apresentado na Wikipedia. Atua no jornalismo musical desde o início dos anos 90. Já fez resenhas, críticas, reportagens no Estado de São Paulo, revista Bizz. Acompanhou a evolução de várias bandas, entre elas Skank, Raimundos, Los Hermanos, Rodox, criou a revista Frente junto com Marcelo Ferla e Emerson Gasperin. Atuou no portal Usina do som, escreveu vários livros: Dias de luta(o rock e o Brasil dos anos 80), a biografia do Simonal (que ganhou o prêmio Jabuti) Nem vem que não tem – (a vida e o veneno de Wilson Simonal); Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar, Tudo é música e Nem tudo é música e agora tem o novo livro E a verdade os libertará: reflexões sobre religião, política e bolsonarismo. Também teve vários projetos na Rádio 89 FM de São Paulo. Relembramos várias coisas. Entre elas, um agradecimento meu a ele pelo fato de que, quando lancei o meu primeiro livro Prezados Ouvintes há quase 20 anos, ele esteve em Porto Alegre e eu dei a ele um exemplar. Eu ainda estava inseguro quanto ao resultado final do texto. E no dia seguinte, já em SP, o Ricardo me envia uma mensagem dizendo que havia gostado muito do livro, do texto, do assunto enfim. Vindo de um cara que trabalhava com a escrita especificamente (que não era o meu caso) foi uma espécie de batismo que muito agradeci. Não só pelo elogio, mas pelo interesse demonstrado e pela rápida resposta que me chamou a atenção. Agora, falamos sobre o seu livro novo, o tal movimento evangélico, sobre música e sobre o podcast “Discoteca básica” entre outras coisas.


Vamos começar falando um pouco sobre a revista Bizz. Você chegou a ser editor da Bizz?

– Esse negócio de cargo tem a ver com o salário, na verdade. Eu era redator chefe mas não tinha diretor de redação, então, na prática, eu era diretor de redação.

A bizz foi uma revista muito legal, que todo mundo que se envolve com a música lembra. Às vezes a gente odiava a Bizz, mas hoje a gente sente saudade porque, pelo menos, havia uma revista. Mesmo que não gostássemos de algumas opiniões ou de alguns colunistas, aquilo era de uma importância tão grande para o universo da música. Mas, a música também tinha outra função no mundo, não é?

– Acho que tem várias coisas importantes no que você falou. A primeira, é uma coisa que eu me debrucei muito para criar, o Discoteca Básica, o podcast, era refletir que tipo de jornalismo faria sentido para a música de hoje em dia. Sendo muito sincero, eu diria que a maior parte do jornalismo, praticado pela revista Bizz , não sobreviveria no mundo de hoje. Porque era muito centrado na notícia, no acesso à informação. Era muito comum a manchete da Bizz dizer apenas: “o novo disco do Simple Minds”, sabe? Ou “entrevistamos o Lulu Santos”. Este tipo de jornalismo não faz nenhum sentido num mundo em que você tem acesso ao disco do Simple Minds na hora em que ele é lançado ou que você acompanha a vida de Lulu Santos, minuto a minuto no Instagram dele. Isto é uma coisa interessante de ser refletida. Outra reflexão importante é o quanto o público de hoje está procurando a conversar sobre música. Por que na verdade é isto, né? A gente concordava sobre algumas coisas, discordava de outras, mas o fato é que nós estávamos ali conversando de música, que era uma coisa que a gente fazia no mundo real. A gente comprava o último disco do U2 e ia para a casa de um amigo discutir o disco, né? A gente ouvia o disco inteiro, conversava sobre a capa, trocava opiniões, eu gostei desta música, eu prefiro aquela outra, que é uma coisa que se perdeu. É mais uma coisa que se perdeu com o surgimento das redes sociais, da web 2.0, neste universo onde a tecla mais usada para ouvir é o skip, né?

– Tem até pesquisa que indica que muita gente não ouve mais uma música inteira.

– Então, o que dirá um álbum. Só que assim, é uma geração infinitamente mais aflita, mais angustiada, paranóica, com várias questões emocionais prementes, e a minha ideia por trás do podcast é dizer para o cara: pára, senta. E ouve (risos). Ouve este disco até o fim. Você tem a oportunidade de tocar o lado A, depois senta de novo, olha a capa, ouve o lado B. É uma proposta menos insalubre. E o podcast pretende dar um ferramental pra que o ouvinte vá ouvir o disco na íntegra. Como ele faria com um filme. Você não vê um filme lavando louça. Então, por que você ouve um disco assim, com esta displicência? Eu acho que esta é a grande mensagem por trás deste podcast. Então, eu tenho ficado muito feliz de ver que, especialmente, ouvintes mais jovens dizendo assim “eu nunca tinha ouvido esse disco na íntegra” ou “eu não sabia que essa música era desse disco” ou, ainda, “eu não sabia que essa música abria esse disco, agora faz sentido pensar que ela abre ou fecha um lado do disco ”. Então, isto é muito gratificante.

Na tua época na Bizz, quais foram os teus parceiros? O Forastieri, o Barcinski?

– O Barcinsky ficou muito identificado com a revista mas ele não chegou a trabalhar na redação. Ele era um colaborador. Minha história com a Bizz é muito boa. Eu era um leitor. Cresci lendo a revista. O meu sonho era trabalhar na Bizz . Aliás, eu virei jornalista pra trabalhar na Bizz . E a primeira oportunidade que eu tive de levar meus textos ali, eu já escrevia meus textos no interior, eu até conto no livro “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar” que eu cheguei lá na redação em 1993. Pra mim era como entrar no Olimpo (risos). A redação era o André Forastieri, o Rogerio de Campos, o Celso Pucci, o Zé Augusto Lemos, o Miranda, eram caras assim… Então, quando eu comecei, a redação da Bizz migrou em bloco pra revista General. Então, eu fiquei escrevendo pras duas revistas. Na General , porque eles estavam precisando de colaboradores e na Bizz porque eles também estavam precisando… logo comecei a trabalhar no Estadão também. Então, eu colaborei em várias frentes da Bizz . Mas eu me aproximei mais no ano 2000, quando o Emerson Gasperin assumiu a redação da Bizz (ele havia trabalhado comigo no Estadão). Depois, quando a revista acabou e ressuscitou em 2004, eu fui convidado pelo gaúcho Adriano Silva para ser o diretor de redação nesta última fase. Daí fiquei até o final.

– Falando no Miranda que nos deixou muito cedo. Rolou até uma lágrima aqui. O Carlos Eduardo Miranda, temos que fazer um tributo ao cara que sempre que a gente encontrava, falava de alguma banda nova, nacional ou não. Sempre apresentava uma fita ou um CD e dizia “ouve isso aqui velhinho, toca lá na rádio”…

– Sim. Eu digiri o documentário Sem Dentes – Banguela Records e a turma de 94 . E sempre que tem exibição deste documentário e depois rolam debates, eu comento que eu sei muito bem o que aquelas bandas estão falando sobre o Miranda. Porque não só o Miranda falava das bandas pra mim, como ele falava de mim também. Eu era um jornalista recém chegado de Jundiaí, e o Miranda teve esta generosidade comigo que ele tinha com as bandas também. Então, ele não é importante para o rock brasileiro ou para o meu documentário, apenas. Ele é fundamental na minha vida. Ter o privilégio de ter convivido com ele e ter feito este documentário, registrar a importância dele e do coração dele, me deixam muito feliz.

– E este documentário está disponível pra ser assistido?

– Sim. Ele fica até meados de 2021, nas plataformas de streaming do Canal Brasil.

– Vamos falar do podcast “Discoteca básica”.

– A minha primeira experiência com podcast foi em 2005, ainda, na revista Bizz. Ainda era muito incipiente, não sabíamos como funcionava, mas eu fiz o projeto, ficamos mais de um ano no ar com edições semanais. Ali falava sobre a revista com informações adicionais. Foi muito legal, mas era um universo diferente. Depois, o podcast se transformou de fato numa “podosfera” e a gente teve uma injeção de relevância no podcast, especialmente, nos últimos dois anos. E o que aconteceu também é que os espaços para profissionais de música foram acabando. Enquanto a gente tá aqui falando ele vai ficando menor. As revistas onde eu escrevia não existem mais, os jornais não têm mais espaço e as rádios estão mais preocupadas com programas de astrologia, culinária, futebol. E as pessoas que gostam de refletir sobre a música, cultura, arte e, mesmo de um jeito pop, também, não têm muito espaço. Então, eu tomei coragem e criei meu próprio espaço, o meu veículo e comecei esse projeto chamado Discoteca básica, que é obviamente uma referência à coluna da revista Bizz, no qual eu trato toda semana de um disco clássico, digamos obrigatório, para as coleções do ouvinte.

– O podcast é a saída para a produção de conteúdo em áudio?

– Cara, eu espero que não seja muito cedo, aqui, para começar uma discussão filosófica. Mas eu acho que a gente tem uma questão geracional, que aquele filme O dilema das redes explica bem. O mundo hoje é organizado pra se dividir. O conteúdo, a informação, o jornalismo que performa melhor é aquele de dividir as pessoas e eu sou fruto de uma imprensa, onde o consenso era anulado, o legal era discutir sobre música. Onde eu via, enxergava valor em críticas a discos que eu gostava, elogios a discos que eu não gostava (risos). A imprensa cultural me ensinou a refletir, a buscar a importância na troca de ideias, a discussão de valor, de cultura. E eu acho que não é uma questão de veículo, sabe? Embora exista, de fato, uma crise de veículos. Imagina: quem vai fazer uma revista de papel, pra mandar pra casa de pessoas, esperando que tenha anunciante? Não vai rolar. Isto é fato. Mas acho que a questão não é só o veículo. Acho que são as pessoas. Então, eu acho que este podcast é um espaço paras as pessoas que estão a fim de conversar sobre música. Que estão a fim de ouvir sobre discos que, eventualmente, estão fora do radar delas, que é um tipo de proposta muito rara, a gente vive num mundo em que os criadores de conteúdo estão aí pra reforçar preconceitos, pra reforçar ideias pré concebidas, e eu não quero fazer isso. Aí é uma questão de missão como ser humano. Eu não vou fazer isso. Então, eu criei um espaço de um tamanho que eu consiga tocar, com um mínimo de estrutura possível, e acho que estou conseguindo falar com as pessoas porque, as primeiras reações dos ouvintes têm sido muito bonitas. Elas estão abertas pro diálogo, estão abertas à prospecção, à troca de ideias, então este é o clima que eu queria criar ali em torno desta comunidade.

Muito se fala que o podcast pode ser uma saída até mesmo para o rádio. Porque ele tem elementos do rádio, mesmo não sendo exatamente igual. Mas, ao mesmo tempo, eu notei que tu usas apenas trechos de música, bem curtos, imagino que seja por um receio de que seja cortado o conteúdo. Por direitos autorais. Porque a emissora de rádio pode tocar qualquer música, mas podcast ainda não.

– É que a legislação ainda é muito turva em relação aos podcasts. Existe uma tentativa de transpor uma legislação de rádio para o que as pessoas chamam de rádio on-line. Mas podcast não é rádio online. Na letra dura da lei, o podcast é download de música. E não é. Não tem absolutamente nada a ver. Então, o que eu tentei fazer, é usar o mínimo possível da música para ilustração. Eu até tentei, confesso, fazer sem música nenhuma mas ficou insuportável de ouvir. Então, resolvi fazer assim pra ver o que acontece.

O livro “Como a música ficou grátis”, aborda estes assuntos que estamos falando. A criação do MP3, a digitalização da música, a pirataria, o fim das gravadoras.

– Eu não li ainda, tá na minha lista aqui. Eu acho que houve uma celebração acrítica por parte da imprensa em relação ao MP3 e à digitalização da música. Eu acho que houve uma ingenuidade muito grande de parte de todo o mundo nesta cadeia, especialmente os jornalistas, porque tinha um cheiro de revolução, sabe? Do tipo “as gravadoras vão acabar kkkkk”. Era super transgressor baixar as músicas e a gente não se deu conta de uma coisa muito óbvia. O jornalismo não vive de música, talvez uma rádio sim, mas o jornalismo não. O jornalismo vive da capa do disco, do cara que faz a capa do disco, da roupa do Bowie, de todo o entorno do mundo da música. E eu acho que este universo foi ferido de morte neste processo. Porque as pessoas não têm o menor apego pela capinha. Já não tinha muito com o CD onde era considerado igual a todas. E agora você mal vê. No Spotify, você clica ali e vira uma animação. Você nem vê. Então, eu acho que a gente não se deu conta disto. E a ideia do Discoteca Básica é falar com as pessoas que ainda se importam com o suporte físico da música e que estão dispostos a pagar um certo preço de compromisso pela música. As que preferem se dedicar a ouvir 40 minutos de um mesmo álbum, do que ficar 40 minutos ouvindo todas as músicas do mundo ao mesmo tempo. Sem a menor intenção ou atenção. Então, é com estas pessoas que eu gostaria de falar.

– Mas tu não acha que corre o “risco” de ser chamado de romântico nesta altura do campeonato (risos).

– Sim (mais risos). Mas eu acho que a gente tem uma missão. Tem algumas coisas que não dá, eu não vou fazer. Eu não quero baratear o meu próprio trabalho. E eu não estou falando de trabalhar barato, porque isso eu faço frequentemente (risos). Eu estou falando de dizer pra mim mesmo e pra quem me ouve e me lê, que o meu trabalho é importante. O meu trabalho faz parte de atribuir valor à música. Se não fosse por mim, a música do artista seria só a música que ele faz no quarto dele. Eu sou a ponte que conecta o quarto do artista com a vida das pessoas, que atribui valor, que transforma manifestação artística em cultura. Isto tem um valor inestimável. Eu quero acreditar nisto. Se eu não acreditar nisto, sei lá. Vou fazer conteúdo pra empresa, comunicação corporativa, este tipo de coisa.

– Ou abrir uma hamburgueria.

– Exatamente. (risos).

Isto me lembra o Miranda também. Ele não fez isso só com bandas novas, ele fez com discos e revistas também. Eu ia lá na casa dele, o quarto dele era nos fundos, a gente entrava pelos fundos da casa. Então, sempre tinha alguém lá. Pessoal das bandas que estavam se formando na cidade. E ali muita gente conheceu gibis, discos. “Bah, véio! Isso aqui é muito a fuder! ” Ele nos convencia daquilo.

– Isso tem a ver com vocação, né? Uma vez eu estava dando uma palestra, acho que foi em Curitiba. Teve uma menina que levantou pra fazer uma pergunta. E ela dizia: porque as rádios isso, as rádios aquilo… eu perguntei pra ela, desculpa, você trabalha com o quê? Ela disse que trabalhava numa loja. Eu falei: você tem que trabalhar em rádio! (Risos). O que é a vocação? Vocação são algumas necessidades do mundo pelas quais eu me responsabilizo. Por exemplo, o meu irmão é biólogo. Ele tem preocupações que nunca passaram pela minha cabeça. Ah porque os bichinhos, não sei o quê, uma rodovia vai destruir os ninhos, estas coisas. Nunca pensei nisto. Mas é óbvio, o meu chamado, a minha vocação é de outra natureza. Se eu escrevo sobre cultura e não acredito nisto, então eu estou no trabalho errado. Eu falo isto sem nenhuma presunção. Acho que todo mundo nesta vida tinha que ter esta preocupação com o seu trabalho. Acho que o esvaziamento deste romantismo, pra usar uma palavra que você usou, é um esvaziamento de um senso de missão, de um senso de chamado. E a gente vira um grande ciclo de batedores de carteira, que estão nesta só para enganar as pessoas. Na boa, não quero fazer parte disso.

E o pessoal não te pergunta por que a Bizz não volta? Assim como me perguntam, por que a Ipanema FM não volta? Rola isto?

– Esta é uma questão interessante. As pessoas gostam de encher o saco, na verdade (risos). A Bizz não deu certo nem quando dava certo. Alguns números da Bizz venderam 80 mil exemplares, um número legal né? Mas a Capricho, a revista da gatinha, vendia 1 milhão! A Bizz, no seu auge, chegou a 100 mil, suando muito. É uma ilusão, na verdade. A revista nunca deu certo. Daria certo por quê? Ainda mais agora que nem tem mais revista. Agora que a Mojo ta aí perigando, a Spin fechou, etc. Imagina, coitada da Bizz. É que pra geração dos anos 80 e, talvez parte dos anos 90, a música era um agregador. Então, eu morando em Jundiaí, o Gasperin em Santa Catarina, você em Porto Alegre, o Paulo André no Recife. A gente ouvia os mesmos discos, leu as mesmas resenhas, leu os mesmos gibis. Todo mundo leu o Cavaleiro das trevas , todo mundo leu A piada mortal, todo mundo escutou o Joshua Tree quando saiu, então, aquilo nos uniu de alguma maneira. E mesmo quem não gosta, porque morava no interior, lia na Bizz, ouvia na Ipanema. E sabia tudo do disco. Era um mundo onde as pessoas buscavam se encontrar e usavam estes elementos da cultura vigente como uma forma de se reunir. O que acontece hoje é uma força cultural pra nos separar. A música não é o que nos une. A música é o que nos separa. Ah, você gosta de sertanejo? Então vai lá pra tua turma. Você gosta de heavy metal? Então vai la pra tua turma, eu sou indie, gosto de uma violinha, então é um mundo muito diferente.

E tu acha que quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou?

– (Risos). Cara eu acho que não só isso, mas como diz o parceiro dele, o Caetano Veloso, “The age of music is past”. Enfim, sempre vai haver música, e música boa. Por isto que eu sempre destaco o rádio nisto, o rádio vive mais de música do que a revista. Eu acho que aquele período em que a música era o vértice das questões filosóficas, sexuais, políticas, ficou até o final dos anos 70 no mundo. A gente teve um repique aqui no Brasil, insuspeito por causa da abertura nos anos 80, até o começo dos anos 90. Assim como a MTV, lá fora, deu uma sobrevida à era da música dos anos 80, ela deu aqui no Brasil nos anos 90, mas eu acho que aquele momentum, ele teve o seu lugar na história. Às vezes eu penso isto.

As vezes a gente ouve algo assim: cadê o novo Nirvana, o novo Caetano, o novo U2… pessoas que representam este movimento todo …

– Eu acho que é uma ilusão a gente acreditar que só o talento do artista basta para transformar o Nirvana no Nirvana (em tom de voz aumentado). Os Beatles nos Beatles. Imagina. Vou dar um exemplo, os Beatles chegam aos EUA apenas três meses após a morte de John Kennedy, se o país não estivesse abalado, naquela proporção, será que eles iriam receber uma banda estrangeira daquele jeito? Alguns sociólogos dizem que não. Aquilo só aconteceu porque o país estava aberto ao que vinha de fora. Talvez movido por uma descrença com a sua própria natureza. Será que o Michael Jackson seria o Michael Jackson se não fosse a MTV, ou o Duran Duran? Eu acho que o entorno é tão importante quanto a música. É disto que eu vivo, falar do entorno. E outra coisa: se os Beatles aparecessem hoje, ou os Stones, ou Pink Floyd ou seja lá o que for, eles iam pegar uma geração que não ia ouvir os discos deles. Imagina o Paul McCartney chegando agora e dizendo: gente eu fiz aqui o Sargent Peppers , uma música grudada na outra, com a capa toda aberta, os caras iam dizer: ah velho, to aqui no Spotify vendo tudo pequenininho, passa pra próxima! O Billy Corgan do Smashing Pumpkins falou isto, quando eles tocaram no Lollapalooza aqui “nosso último disco é super bom, mas as pessoas não ouvem ele como ouviam o Siamese Dream.” Aí eu fui ouvir o disco e percebi que eu mesmo não tinha ouvido. Ou seja, eu tinha ouvido ali enquanto pintava uma parede, levava o cachorro pra passear e eu comecei a me dar conta que era verdade. O Smashing Pumpkins pode lançar um disco tão bom quanto o Mellow collie ou o Bob Dylan pode lançar um Blonde on Blonde que a gente não vai ouvir. Então, eu acho que é outro ponto importante. Por isto que eu quero voltar um pouco nesta discussão. Acho que a gente precisa reaprender a ouvir. É um trabalho de formiguinha. Mas é o que dá pra fazer.

Mas tu acha que isso acabou quando? O Forastieri, por exemplo, diz que foi quando o Curt Cobain morreu. Ali acabou o movimento em torno do rock, ou o rock como algo com significado além da música.

– Eu acho que o Curt Cobain já foi hora extra. Ali já tinha acabado. Se você assistir aquele documentário All thing must pass sobre a Tower Records, ele fala de coisas importantes. Primeiro ele atribui o surgimento da cadeia de lojas à importância do LP. No primeiro episódio do Discoteca básica, eu falo do Pet Sounds do Beach Boys, que é um disco de 66, que foi muito prejudicado porque o mercado era um mercado de singles, não era um mercado de LPs. Era um mercado sem imprensa especializada, imprensa de rock. Era um disco que propunha um exercício quando não tinha ninguém pra discutir. Ninguém ia debater a complexidade daquele disco ou o quanto ele era incompleto em si mesmo, porque não era este mundo em 66. Em 67 já mudou. Já tem o Sargent Peppers, o Freak Out, aqueles discos maravilhosos. E aí no documentário eles falam que, exatamente naquele momento, a indústria começa a direcionar esforços para que o público comece a comprar o álbum cheio e não só os singles. Isto é curioso porque o episódio 3 do Discoteca Básica é o Abraxas, do Santana, e é um disco que os primeiros singles só são lançados meses depois do álbum. Isto porque a ideia, nos anos 70, era assim: o fã vai comprar o LP e depois de esgotar esta fase a gente lança os singles pra pegar o público desinteressado. Então, é uma mentalidade oposta àquela de cinco anos antes. E isto (diz no documentário) dura até a época da “música disco”. Em 78, 79 esta mentalidade já começa a cair. E o surgimento da MTV, nos EUA, provoca uma nova onda de interesse em música. Aí tem o surgimento do CD, que atrai uma multidão pra comprar de novo os discos, o que deu uma super revigorada na indústria. A partir dos anos 90 já é cenas finais, já é hora extra. Aqui no Brasil a gente tem um novo fôlego por causa da MTV, porque isto influenciou demais toda a cadeia. Teve um universo que não existia, dos clips que influenciavam as rádios, que influenciavam as revistas e jornais. Ali estava muito forte. Mas eu entendo que o espírito que caracterizou o Led Zeppelin, o Dylan, o Pink Floyd e todas estas bandas, ele dura até o começo dos anos 80 e depois a gente vai de ressurreição em ressureição até meados dos anos 90.

E chegamos ao mundo das redes sociais, do digital, das telas, do streaming…

Aí tem um ponto que eu acho que se revela uma pequena dose de benefício das redes sociais porque você pode fazer um projeto e chegar num pequeno número de pessoas que sustentam este projeto. Esta é a minha esperança com a Discoteca básica. Eu não tenho nenhuma pretensão de parear o meu programa com os programas de debates engraçados que tem ali nos podcasts, não acho que os artistas que circulam no meu universo vão parear com o número de likes da Anita. E eu não tô interessado nisto. Isto é outro tipo de imprensa, isto é imprensa de hit parade, sempre existiu, mas a minha onda é outra. É tentar falar de cultura, é tentar agregar valor pra música. Então, eu acho que graças às redes sociais, a gente é capaz de chegar no público que, embora não seja majoritário, mas, possivelmente, exista um número de pessoas espalhadas pelo Brasil, pelo mundo, que pode ser interessante como um produto, um projeto, um negócio.

É a história da cauda longa, os nichos que possibilitam uma audiência forte, com pessoas de todos os lugares, representados.

– Este é o espírito. É um negócio de guerrilha, de resistência mesmo. É aqui que me interessa ficar.

E isto não está só na música, isto nos joga para a discussão de conteúdo, nas fake news, que está também no tema do teu livro novo: “E a verdade os libertará: reflexões sobre religião, política e bolsonarismo.” É um tema bastante atual e importante no Brasil de hoje. Este crescimento do movimento evangélico e o envolvimento com a política.

– É eu sou cristão, de tradição protestante. Congrego numa igreja Batista e eu me sinto profundamente ofendido quando vejo um político de carreira dizendo num estádio “eu sou cristão” uma pessoa que não é capaz de dizer um versículo além daquele que está em sua campanha, fazendo videozinhos dizendo que ora pela nação. Esta manipulação da fé das pessoas, esta falta de respeito com o nome de Deus me ofende profundamente. Mas entendo como um fenômeno de Comunicação que tem a ver com a questão das redes sociais, com a polarização do mundo. E eu fiz um livro para entender e refletir sobre como isto se deu. Então, eu falo de marketing político e sobre como uma igreja mal preparada, doutrinariamente frágil, uma igreja cristã que não se importa com Cristo, uma igreja cristã que não lê a Bíblia, porque está tudo ali na Bíblia. O livro confronta este governo, esta campanha e estes pastores, com a própria Bíblia e eu acho que isto está cobrando seu preço. Não é porque são evangélicos, é preciso ter cuidado com isto. Os evangélicos eles são demográficos como qualquer outro, o que eu acho é que esta igreja evangélica e esta cultura que se criou no meio desta igreja evangélica, ela é muito convicta dos seus preconceitos, convicta de suas fake news, convicta dos seus líderes que não podem ser contestados, e convicta do pouco caso que ela própria faz da mensagem de Jesus e dos apóstolos; então, pra esta parte da igreja, que é muito grande dentro disto que se convencionou chamar de movimento evangélico, que não caracteriza, evidentemente, todos os evangélicos, afinal eu tô aqui falando sobre isto, mas como um movimento de aspirações políticas, de conquista de espaço. É muito relevante como fenômeno social, eu acho que isto tá cobrando seu preço da sociedade, então é um livro de reflexão pra quem quer refletir, que não é muita gente. Então, é um livro direcionado para quem é cristão e quer rever os descaminhos da fé e da espiritualidade e da vivência da sua espiritualidade, da religiosidade. E pra quem não é cristão, eu recomendo, fortemente, pra entender as sutilezas deste universo dito evangélico, que é gigantesco e que foi negligenciado da discussão pública pelo menos nos últimos dez ou vinte anos. Acho que este senso de pertencimento também tá falando alto agora. Tipo “temos um presidente que nos enxerga” então, acho que isto tudo é motivo de reflexão, mesmo que eu ache que as pessoas não queiram refletir.

E a palavra Evangélico, que sempre existiu, agora ganha uma conotação para este fenômeno atual.

– De novo cito o documentário O dilema das redes, onde eles falam “a verdade é chata. A mentira é muito mais legal ”. A cena que eu sempre uso, diz assim: o Deus de Jesus era o Deus invocado pelos torturadores e pelos torturados. Então, é o mesmo Deus? É Impossível ser o mesmo Deus. A gente está vendo aí o Padre Julio Lancelotti em São Paulo sendo ameaçado por cristãos. Então, um dos dois tem um Deus ali que não é o Deus da Bíblia. É impossível ser o mesmo Deus. Acho que vale a pena a gente refletir sobre isto.

E tudo isto tem a ver com redes, algoritmos, gabinetes do ódio…

– Essa algoritmização da comunicação é um problema, mas a gente está no país mais devoto das redes sociais. Eu vi uma pesquisa recentemente onde 15 por cento da média mundial usa o Whatsapp como veículo principal de informação, é muito alto. Mas no Brasil esta taxa é de 51%, a gente é o segundo país do mundo, que mais se dependura nas redes sociais. Então, tudo aquilo que a gente vê no Dilema das redes, tudo que a gente ouve falar no escândalo do Google Analytics é potencializado no Brasil porque aqui é um país que as pessoas não leem, nunca leram, mas agora elas se acham muito espertas por não ler. Elas acham que estão numa super vantagem competitiva porque agora elas não são mais “manipuladas pela Folha” (risos). Agora elas estão manipuladas pelo Facebook.

Ou por mensagens que elas não sabem quem mandou pelo Whats

– Então, eu acho que isto, de fato, é o problema. Hoje mesmo eu estava conversando com um amigo sobre o que o Bolsonaro falou na ONU. A cristofobia. Eu disse: cara, a cristofobia não existe no Brasil. Ponto. Isso é uma mentira. Por outro lado, há um medo do evangélico de uma perda de direitos por conta das políticas identitárias dos governos de esquerda, que foram sempre belicosas, que sempre foram para o confronto. E isto que eu acabei de falar, nunca vai chegar nas redes sociais. Não vai performar nas redes sociais, porque eu estou dizendo que a cristofobia não existe e que a esquerda errou. Isto é um fracasso nas redes sociais. Porque no mundo que a gente vive, ou você acredita que a cristofobia existe, ou você acredita que a esquerda não erra. Então essa ideia de reflexão é um problema, mas se eu não acreditar que isso é possível, eu vou morrer né cara?

Não, não agora pelo menos. Temos que acreditar em algo.

– Não é?


Mauro Borba.

Fonte: https://medium.com/@mauroborba às 10:00, dia 27/10/2020

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